A Constituição de 1822: O Fim do Absolutismo e o Nascimento do Portugal Liberal

constituicao_de_1822

A Constituição de 1822

1. Contexto Histórico e Origens

O início do século XIX foi um período de profundas transformações políticas em toda a Europa. Em Portugal, o impacto da Revolução Francesa, as invasões napoleónicas (1807–1811) e a transferência da corte para o Brasil criaram um clima de instabilidade sem precedentes.

A ausência prolongada de D. João VI alimentou o descontentamento popular e a aspiração por um novo modelo de governação, culminando na Revolução Liberal do Porto, em agosto de 1820.

 

Principais causas da Revolução Liberal de 1820

Causa

Explicação

Invasões napoleónicas

Destruição do país e enfraquecimento do poder régio entre 1807 e 1811.

Ausência do rei

D. João VI permaneceu no Brasil mais de uma década, gerando descontentamento.

Ideais iluministas

Influência da Revolução Francesa e do pensamento liberal europeu.

Crise económica

Abertura dos portos brasileiros em 1808 prejudicou o comércio português.

 

Sequência dos acontecimentos

1820

Revolução Liberal do Porto — exigência de uma constituição e regresso do rei.

1821

D. João VI regressa do Brasil e são convocadas as Cortes Constituintes.

1822

Aprovação e juramento da primeira Constituição portuguesa.

1823

Vilafrancada — D. João VI suspende a Constituição, restaurando o absolutismo.

 

2. Os Quatro Princípios Fundamentais

A Constituição de 1822 assentou em quatro grandes pilares, herdados do pensamento iluminista e da Revolução Francesa:

 

Princípio

O que significa

Exemplo prático

Liberdade

Garantia de direitos individuais: expressão, imprensa, segurança pessoal.

Ninguém podia ser preso sem motivo legal.

Igualdade perante a lei

Todos os cidadãos têm os mesmos direitos, independentemente da origem.

Fim dos privilégios exclusivos da nobreza.

Soberania nacional

O poder reside na Nação (nos cidadãos), não no rei por “direito divino”.

Os deputados eram eleitos pelos cidadãos.

Separação dos poderes

Os poderes do Estado são divididos por órgãos diferentes e independentes.

O rei não pode fazer leis — isso é função das Cortes.

 

3. A Separação dos Poderes

Antes de 1822, o rei concentrava todos os poderes do Estado. A Constituição distribuiu esses poderes por três órgãos independentes:

 

Poder

Órgão responsável

Função

Quem o exerce

Legislativo

As Cortes

Fazer as leis

Deputados eleitos pelo povo

🏛 Executivo

Rei + Governo (ministros)

Aplicar as leis

Rei e ministros nomeados

🔨 Judicial

Os Tribunais

Julgar quem não cumpre as leis

Juízes independentes

 

4. Monarquia Absoluta vs. Monarquia Constitucional

A Constituição de 1822 pôs fim à Monarquia Absoluta em Portugal. A tabela seguinte compara os dois modelos:

 

Monarquia Absoluta (antes de 1822)

Monarquia Constitucional (após 1822)

Fonte do poder

O rei (por vontade divina)

A Nação (os cidadãos)

Quem faz as leis

O rei, por decreto

As Cortes (deputados eleitos)

Limites ao poder do rei

Nenhum — poder ilimitado

Constituição escrita e Cortes

Direitos dos cidadãos

Não garantidos por lei

Consagrados na Constituição

Separação de poderes

Não existia

Sim — três poderes distintos

 

5. O Direito de Voto — Conquistas e Limitações

Apesar do avanço que representou, a Constituição de 1822 restringia quem podia votar. Só muito mais tarde o sufrágio seria verdadeiramente universal.

 

Quem podia votar em 1822

  • Homens adultos: que soubessem ler e escrever
  • Livres de qualquer dependência pessoal
  • Não pertencentes a ordens religiosas nem mendigos

 

Quem estava excluído do voto

  • Mulheres — independentemente da instrução ou condição social.
  • Analfabetos — a grande maioria da população portuguesa.
  • Frades e mendigos — considerados sem autonomia de vontade.

 

Evolução do sufrágio em Portugal

1822

Sufrágio masculino e restrito — apenas homens alfabetizados.

1911

1.ª República — mantém restrições; mulheres continuam excluídas.

1931

Algumas mulheres com instrução superior passam a poder votar.

1976

Sufrágio universal — todos os cidadãos com mais de 18 anos, sem exceções.

 

6. Legado e Importância Histórica

Apesar de ter vigorado apenas um ano (suspensa pela Vilafrancada em 1823), a Constituição de 1822 deixou marcas profundas na história portuguesa:

 

  • Primeira constituição portuguesa: inaugurou o Estado de direito em Portugal.
  • Base do constitucionalismo nacional: influenciou todas as constituições posteriores do século XIX.
  • Proclamou direitos e liberdades: consagrados pela primeira vez num texto legal.
  • Estabeleceu a separação de poderes: pondo fim à concentração absoluta de poder no rei.
  • Semente da democracia: as ideias de 1822 só seriam plenamente concretizadas com a Constituição de 1976.

Fichas para exercitar:

Ficha Liberais e absolutistas

Ficha Liberais e absolutistas soluções

Teste Liberais e Absolutistas

Teste Liberais e Absolutistas soluções

 

Artigos recomendados