LUSÍADAS: ANÁLISE DESPEDIDAS DE BELÉM

ANÁLISE INÊS DE CASTRO

Despedidas em Belém (Canto IV, estâncias 84-93)

Estrutura externa: Canto IV, est. 84-93
Estrutura interna: Narração
Narrador: Vasco da Gama
Narratário: Rei de Melinde
Plano narrativo: Plano da viagem

 

Introdução

Este episódio, também conhecido como “Praia das Lágrimas”, faz parte do plano da viagem e é narrado por Vasco da Gama ao rei de Melinde.
Trata-se de uma analepse que permite tomar conhecimento do sucedido na viagem dos marinheiros desde a partida de Lisboa até ao momento em que chegam ao canal de Moçambique (Canto I, est. 19 — recorde-se o conceito de narração in medias res).

 

1.ª Parte – Os preparativos da viagem (est. 84-87)

Vasco da Gama relata os preparativos para a partida.
O papel de Gama como narrador deste episódio fica explícito na utilização do pronome pessoal “me” («pera seguir-me» — est. 84) e no recurso à primeira pessoa do singular («[eu] Certifico-te» — est. 87).
O interlocutor, o rei de Melinde, é igualmente assinalado através do pronome “te” («Certifico-te» — est. 87) e do vocativo («ó Rei» — est. 87).

Neste momento inicial, Vasco da Gama situa a ação «no porto da ínclita Ulisseia» (est. 84) e, de seguida, sublinha a coragem dos marinheiros e dos guerreiros que o acompanham na longa viagem:

«não refreia / Temor nenhum o juvenil despejo,
Porque a gente marítima e a de Marte / Estão pera seguir-me a toda a parte» (est. 84)

E também a sua determinação:

«E não menos de esforço aparelhados / Pera buscar do Inundo novas partes» (est. 85)

Após se mostrarem aptos física e psicologicamente, os marinheiros assistem a uma cerimónia religiosa para preparar a “alma pera a morte” (est. 86), ouvindo missa, comungando e pedindo a Deus proteção:

«Implorámos favor que nos guiasse, / E que nossos começos aspirasse» (est. 86)

No final da descrição dos preparativos, Vasco da Gama relata a entrada nas embarcações, referindo-se ao espaço que abandonam por meio de uma perífrase que alude ao topónimo Belém:

«Partimo-nos assim do santo templo / Que nas praias do mar está assentado, /
Que o nome tem da terra, pera exemplo, / Donde Deus foi em carne ao mundo dado» (est. 87)

A sua afirmação final —

«se contemplo / Como fui destas praias apartado, / Cheio dentro de dúvida e receio, / Que apenas nos meus olhos ponho o freio» (est. 87) —

permite estabelecer um contraste entre a determinação dos homens e os medos que os assaltam no momento da partida.
Os sentimentos evidenciados engrandece[m] os heróis portugueses, pois, além dos feitos, venceram também os medos e dúvidas que poderiam tê-los impedido de conquistar o mar e chegar à Índia.

 

2.ª Parte – A despedida (est. 88-92)

1.º momento – Plano geral (est. 88-89)

O narrador centra-se nas pessoas que ficam na praia, assistindo à partida dos nautas.
Começa por referir-se à multidão de forma generalista como “A gente da cidade” (est. 88), oferecendo um plano geral sobre aqueles que assistem à partida.
São amigos, familiares e também curiosos que vão “por ver somente” (est. 88).

Todos partilham tristeza e saudade, pois quem embarcava era tido como possivelmente condenado à morte:

«Em tão longo caminho e duvidoso / Por perdidos as gentes nos julgavam» (est. 89)

O narrador detém o olhar nas mulheres que choram com “choro piadoso” (est. 89) e nos homens que suspiram.
Mas a atenção centra-se sobretudo nas “Mães, Esposas, Irmãs” (est. 89), unidas por tristeza e medo de não voltar a ver os seus familiares.

2.º momento – Plano de pormenor: a mãe (est. 90)

O narrador foca-se em duas figuras — uma mãe e uma esposa —, personagens coletivas que representam todas as que ficam na praia.

O discurso da mãe é marcado por interrogações retóricas, revelando a incompreensão face à atitude do filho, o único “emparo / Desta cansada já velhice”.
A revolta é expressa na questão:

«Porque de mi te vás, o filho caro, / A fazer o funéreo encerramento, / Onde sejas de pexes mantimento?»

Sublinha-se aqui a injustiça de ver o filho partir para uma possível morte, deixando o amor materno sem resposta.

 

3.º momento – Plano de pormenor: a esposa (est. 91)

A mesma mágoa surge nas palavras da esposa.
Recorrendo também às interrogações retóricas, censura o marido por ir para o mar, levando consigo a vida que não é só dele, mas também dela.
Acusa-o de colocar em risco o amor que os une:

«Nosso amor, nosso vão contentamento, / Quereis que com as velas leve o vento?»

A aliteração do som -u- evoca o vento que leva o marido — e com ele, a vida da mulher.

 

4.º momento – Plano geral (est. 92)

Após o lirismo dos discursos individuais, o narrador regressa à visão geral da multidão, destacando os sentimentos de “amor e de piadosa humanidade”.
Refere-se aos velhos e aos meninos que também ficam na praia.
A própria natureza é personificada, partilhando a dor humana:

«Os montes de mais perto respondiam, / Quási movidos de alta piedade»
e a «branca areia» chora com quem fica na praia.

 

3.ª Parte – A partida (est. 93)

O episódio termina centrado nos que partem.
Vasco da Gama decide que a partida se fará

«Sem o despedimento costumado»,

como forma de evitar o sofrimento — «Por nos não magoarmos» — ou uma possível mudança de decisão:

«ou mudarmos / Do propósito firme começado».

 

Recursos Expressivos

Recursos diversos

  • Interrogações retóricas: presentes no discurso da mãe e da esposa; marcam a dúvida, incompreensão e revolta.

Figuras de estilo

  • Aliteração: «Nosso amor, nosso vão contentamento, / Quereis que com as velas leve o vento?» (est. 91)
    → a repetição do som -u- recorda o som do vento que levará os barcos para longe das mulheres.

Apóstrofe: «ó Rei» (est. 87)
→ invocação do rei, interlocutor de Vasco da Gama.

  • Hipérbole: «Às mulheres cum choro piadoso, / Os homens com suspiros que arrancavam» (est. 89)
    → intensifica os sentimentos que dominavam a multidão na Praia das Lágrimas.
  • Perífrase: «Que nas praias do mar está assentado, / Que o nome tem da terra, pera exemplo, / Donde Deus foi em carne ao mundo dado» (est. 87)
    → referência ao topónimo Belém.
  • Personificação: «Os montes de mais perto respondiam, / Quási movidos de alta piedade» (est. 92)
    → atribui características humanas à natureza, amplificando a força dos sentimentos de tristeza que dominam a multidão.

Fichas para exercitar:

Teste Despedidas de Belém

Teste Despedidas de Belém soluções

 

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